Sexta Entrevista

ficaram mazelas a que ele acrescentava mais aquela.
Outro, não aguentando a permanência contínua na enfermaria, todas as noites “saltava o muro”, e lá ia por essa Lisboa fora; tanto saltou que dos saltos acabou por ficar a coxear.
Histórias ouviam-se de uns que trocavam radiografias e outros que entregavam especturação de outros.
No canto direito da enfermaria estava o herói condecorado que tinha ficado com estilhaços na cabeça, por vezes sem que tenha eu alguma ideia do por quem, desatava aos saltos em cima da cama até deixar os ferros daquela feitos num L, depois desmanchava a cama e endireitava-os.
Todos tínhamos uma farda cinzenta de sarrabeco, casaco e calças. Quando íamos à consulta ao edifício principal, além da farda era obrigatório levarmos um carapuço branco enfiado na cabeça o que dava a imagem de prisioneiros metidos num autocarro.
Por essa altura o Benfica jogou para o Europeu no estádio da Luz, foram levados a assistir ao jogo alguns enfermos com problemas nos membros, o tejadilho do autocarro ia pejado de cadeiras de rodas e outros apetrechos com os inoxes brilhando lá no alto a enfeitar a camioneta comoventemente coroada.
Um dia em que fui à consulta de estomatologia ao edifício principal na Estrela, fiquei de pé numa bicha esperando a minha vez, às tantas, já cansado de ali estar, peguei em mim e sentei-me numa cadeira que estava entre nós e o doutor; qual não foi a ousadia, logo o Dr. olhou para mim e vituperou-me uma, duas, três vezes, como eu não lhe desse resposta alguma, imperturbável mudo fiquei a olhar para ele, desesperado perguntou- me:
- em que serviço está você? ao que respondi:
- na neurocirurgia!
Perturbado, acrescentou súbito: - deixe-se estar deixe-se estar! E eu lá fiquei sentado até que fui atendido.
Entrevista no HMC Nº 6 by adão contreiras
Histórias ouviam-se de uns que trocavam radiografias e outros que entregavam especturação de outros.
No canto direito da enfermaria estava o herói condecorado que tinha ficado com estilhaços na cabeça, por vezes sem que tenha eu alguma ideia do por quem, desatava aos saltos em cima da cama até deixar os ferros daquela feitos num L, depois desmanchava a cama e endireitava-os.
Todos tínhamos uma farda cinzenta de sarrabeco, casaco e calças. Quando íamos à consulta ao edifício principal, além da farda era obrigatório levarmos um carapuço branco enfiado na cabeça o que dava a imagem de prisioneiros metidos num autocarro.
Por essa altura o Benfica jogou para o Europeu no estádio da Luz, foram levados a assistir ao jogo alguns enfermos com problemas nos membros, o tejadilho do autocarro ia pejado de cadeiras de rodas e outros apetrechos com os inoxes brilhando lá no alto a enfeitar a camioneta comoventemente coroada.
Um dia em que fui à consulta de estomatologia ao edifício principal na Estrela, fiquei de pé numa bicha esperando a minha vez, às tantas, já cansado de ali estar, peguei em mim e sentei-me numa cadeira que estava entre nós e o doutor; qual não foi a ousadia, logo o Dr. olhou para mim e vituperou-me uma, duas, três vezes, como eu não lhe desse resposta alguma, imperturbável mudo fiquei a olhar para ele, desesperado perguntou- me:
- em que serviço está você? ao que respondi:
- na neurocirurgia!
Perturbado, acrescentou súbito: - deixe-se estar deixe-se estar! E eu lá fiquei sentado até que fui atendido.