domingo, fevereiro 22, 2026

modelações XLIV

 

 

Pintura a lápis aguarela Papel cavalinho de desenho 29X41,5 2025

- Ilustração para a capa do livro de Fernando Martins  "Era uma vez UM MUNDO" 

 

Vergastadas

- excerto do II volume dos

Corredores habitados - por publicar

 As calorias gastas nas imagens avulsas que transitam nos circuitos nervosos, dum lado para o outro, como febre abreviada no destino, criando vão a desenvolta ganga de solicitações; percepção de uma realidade oxidada e deslumbrante, onde se incrustam as emoções, umas letradas, outras soletradas pelas estranhezas do dia-a-dia; farrapos das vivências que encandeiam o imaginário –, agigantados cartazes nas fachadas dos cinemas dão ênfase ao mundo, aumentando a dimensão diminuta do entorno da aldeia, onde os olhares se mantinham acasalados aos interstícios dos trabalhos sazonais; galgando pelos arruamentos com a visão dos espaços cruzados e densos, subtrai-se daí um pão de maça azedada, na crispação dos rostos, – viscerais e decididos andamentos; duma acutilante razão das sombras, desse espaço torcido de vozes singulares, cresce sub-repticiamente o titubeante apreço pelas leituras; voando na grande eloquência dos sentidos, soltam-se luzes amachucadas nos horizontes efémeros; perturbado ou alegre corre-se pelos desvãos onde a circulação dos seres nos embrulham como insectos presos nas teias de aranha; as forças dos interesses, vários, projectados nos actores em circulação, avatares de cuspidelas sobre a tristeza, ronrons da festividade dos logros, abraços às bravuras imersas no desvairo social, dão a forma viva à cidade; palco florido do espaço comunitário, arrebatado e fortuito, deslizando nos indivíduos e no vulnerável agregado, arrumando as consciências nos vazios da mente, – dilatação do comum senso; na cisma, reflecte-se a magnitude compacta do impossível, aglomeração de estrelas ou bicho vaga-lume diminuto e fugidio; onda indizível afogueada de impulsos agridoces, projectando seus álacres redemoinhos de pensamentos e tónicos afazeres; pinturas saindo do manejamento dos pincéis, onde mão e olhos arrebitam pormenores, soltando as cores da paleta para a gloriosa fantasia da representação, desvelando as paisagens e objectos, temas que alongam os olhares ansiosos; gestos de dormência activa, e amargura seca, procurando o bom discernimento da composição e das formas visuais, no papel ou quadro; harmonias petulantes desengonçam inquietas perturbações –, na sala de pintura, furando a densidade do respeito, sobe-se para cima do estirador e dança--se sobre…, a fanfarronice eleva-se na acumulação do entusiasmo e, empolgado e visceral como cão salivando, proclama-se –, COR É VIDA, COR É VIDA…, estremecem os pés da mesa e o tampo balanceia ao menear das pernas e braços; o professor olha com espanto, estático, talvez se interrogue, a sala é iluminada pelos olhares expectantes da turma, e o mestre, descendo-lhe das pálpebras uma sombra de ternura, condescendente, absorto na dúvida, espera que a cena termine; a desvairada festa precipitando convulsões de animado desaire, na bagunça das emoções, evapora-se na substância do ser como sumo de laranja ao sol, e com um salto chega-se ao chão; do silêncio em suspensão, roendo no espaço iluminado pelas cores presas às paletas, solta-se um burburinho de vozes animadas e circunspectas, na sempre discutida e avaliada continuação dos trabalhos pictóricos, por estes passageiros imersos nos jardins flutuantes, com a luz de néon queimando as pálpebras e as cores –, a escola é um espaço de animação feroz, cultiva-se a galhofa, a animada presença, o traquinar dos actos espontâneos queimando a alegria na periferia dos azares; ímpetos do acordar das madrugadas nos sujeitos de ânimos esteticistas, que limpam as manhãs dos vícios, na cidade impante; – daqui se celebra a limpidez desse voar das horas, se recorda o entalhe da profunda cicatriz marcada pelo tempo imorredoiro nas vísceras da secreta eternidade, – larga dureza das sombras.    

 

 

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

modelações XLIII

 

 modelações XLIII

 
A Palavra aprisionada - Pintura a óleo sobre tela

65x81cm Anos 00


A realidade é uma coisa estranha, abismos apitando na mente como danças de cavalos selvagens, nas pastagens dos sonhos; o mundo veste-se de cor-de-rosa e sangra; acelera-se a velocidade em busca do sigilo dos ventos -- aranha suspensa de fio de seda cuspido; vejo o coração das pedras bater forte com as dores das primaveras mecânicas, os olhos das pessoas suspendidas do arroz-doce, baba-de-camelo nas prateleiras fulgurantes; e, eu, que não acreditava em destinos voláteis, arremeto contra as rasuras, os medos cuspidos da vergonha, a doidice que me ronda inescrupulosamente; o dilatar das arrogâncias estranhando-me pesadamente, com os disparos sobre os crepúsculos, dá um tom musculado ao saber que ecoa no orbe; assim, constatando que a realidade se evapora na multidão, quando vão ao supermercado comprar um papo-seco e o custo superou a bondade dos tempos, aumentando, murcham os olhares vaporosos das nossas infâncias alegres -- a realidade é uma ratoeira! -- com a assimetria da verdade em andamento perverso, restam barões e soldados, como enxame voando nas alturas das glórias flutuantes; o pensamento corre como laranja exprimida em queixas da timidez, quando…; é incómodo pensar arrebatadamente, penso --, é como se o fisco arranhasse nas algibeiras; de qualquer modo, ao abordar este assunto olhando pelo espelho, observei, que as ligaduras que prendem o real ao irreal -- eram compostas por versos estranhos, e carinhosos:

   

Veredas que repartem caminhos

De gentes de todas as marés,

Veredas que trazem vizinhos

Veredas que levam ao que tu és

 

Veredas que todos percorrem

Com o som do sangue nas feridas,

Veredas que a todos movem

Nas veredas de todas as despedidas

 

Veredas que o vento nos traz  

Veredas que o vento nos leva,

Veredas que nos trazem a paz

No ventre do ondular da erva   

      

sexta-feira, janeiro 02, 2026

modelações XLII

 modelações XLII

Máscara  - Pintura a óleo sobre tela 
 4x(50x20) cm Anos 90

Nas abas da aflição cresce a abundância, é um sigilo de vertigem, uma crosta no pão salgado, um bocejo eterno para o amor dividido; a pessoa veste os seus trapos, mar de sargaços; pousa a mão sobre a saliva, deixa um buraco no ameno vento; ligeiramente cantando, inunda-se a voz, corta-se o eco com uma tesoura; na cidade eterna dançando com os tojos, cumpre-se a missão da dúvida sobre o primor da seda dos ossos, da queda dos joelhos viajantes; -- é um poço de segredos a nossa vida! -- nada cresce na vertigem do vinagre, e só a flutuação dos calcanhares alivia a dor; também há flores no jardim, é bem verdade! --um osso amargo na estrumeira, um fósforo ardendo na água, porem! Deseja-se um alívio? --sim! À beira mar plantado o corpo ferve, e a manteiga dos sonhos desfaz-se em borboletas descoloridas? -- nas ruas iluminadas há ecos da sonolência das estrelas; dormem os cascos dos cavalos nas pastagens adocicadas, e as trempes que sustentam as panelas sobre o fogo do carvão azedo, amuaram com o frio da cinza; sentado à lareira, viajo na solidão com o peso das orelhas gritando; solta-se um pó-de-arroz do eco da cidade, uma mancha aberta nas folhas das árvores, um despiste nos caminhos dos desejos; dias tortuosos como agulhas espetando os olhos avistam-se ao longe, na embriagada luminosidade; palavras crescem nas adegas dos venenos, entropias dos sons desaguam nas aparências dos cristais; na rua do meu vizinho dorme a alegria com uma tristeza doentia; a manta que cobre os seus pelos é uma pele de crocodilo latejante como asteróides numa bandeja; um triângulo de certezas é redondo e ninguém o agarra; sobra da água do mar o alívio das pedras; a bandeira das quinas é um lençol afogado que se colhe delirante nos jardins da praça pública; naturalmente, que digo tudo isto, com o medo de me arriscar a viver! -- as laranjas do Algarve são doces, mas por vezes têm uma casca grossa, --- é preciso uma faca bem afiada, digo eu, para abrir caminho para a doçura! -- Corações há que petrificam na insolvência dos dias. Solene caminhar ardendo aos soluços, no palácio Gulbenkian, os hinos rejubilam das mesas; o silêncio cresce como a ternura nos rostos dos bebés, -- se o algodão não mentir! 


domingo, novembro 30, 2025

modelações XLI

 

Sangue impetuoso -- Constituído por 6 quadros
Materiais diversos: Estampa impressa, pintura a tinta sintética sobre vidro, molduras de madeira, platex e plástico – Apito/brinquedo tradicional de cerâmica Anos 20

O dia está luminoso. Na esplanada amortecem as horas agrestes; é já Outono e as árvores pedem água! que bom! -- a fugidia aragem, a coroação dos olhos na distância sem sentido, o longo abano dos sentidos na frouxa mansidão; tudo é repassado por uma sonolência de sombras azuis, vizinhas do esquecimento; estar e não estar, pousar a mão na distracção dos segredos como se espremesse uma laranja num dormir pesado; a iluminação do fundo arrebol é estrita à abundância das sementes, dos orifícios que medram nas pedras anguladas, e nos soltos torrões; hibernados estão, na fragrância da inércia dos acordes, na moldura dos pastos que cantam zumbindo ao afagar dos ventos sedosos; sem surpresas passa um carro, não de besta! auto-móvel -- mas que rastos da lassidão deixa nos emblemas que arrastam a fervura dos sonhos! -- pesa a imensa bagatela de estar vivo, a lúcida iluminação dos poemas, a engrenagem que alimenta o tédio, a dor das virilhas que desandam num baloiçar do corpo; estar aqui na irremediável certeza, no bafo do vento e da luz, na poeira da metafísica dos olhos, nas interrogações que nos fazem os arbustos, as iníquas ervas restantes, desse verão de vagos impulsos agarrado aos lumes do sol ardente, estar aqui na frouxa dor da mansidão com a alegria inerte das entranhas, das vísceras, dos testículos em abandono da criação, tudo emerge da crosta terrena, da arrecadação dos pulsos nas arcadas sonantes; num azul de betume das nossas queixas, visitam-me abelhas presas ao açúcar do café, como mensageiras do óbvio -- estamos todos presos e soltos! É bom elaborar sentimentos, lentamente devagar, ter a renda da casa paga!    

sexta-feira, outubro 10, 2025

modelações XL

 

 Forças ocultas - Pintura a aguada sobre cartolina 
  100x65cm Anos 80

 

Os arbustos da vida são selvagens; crescem-lhes as raízes entre o turbilhão das multidões; espreitam fervorosamente pelas luzes da abundância, e nas línguas de fogo do desespero morre-se carnavalescamente, e soterrado; o universo cospe-nos do seu mistério, mas também uma banana, um ouriço ou um camelo; neste impasse, estou presente como uma onda espicaçada pelo vento; vejo as nuvens e os astros, a doçura de um rosto, a postura arrebatada de um olhar; sinto os poços da maldição na linha duma mão, na outra, crescendo em vertiginosos encontros, encosto-a ao rosto do fulgente amanhã como a dança dos alegres insectos; há flores nas bermas que pedem sol, quando, devagar, passo a mão pelas suas folhas aciduladas; no armazém das farturas envolvem-se plásticos sobre as sementes; enrolam o nome das coisas numa densa atmosfera, -- poeira dos segredos; percorri os montes atravessando os ramos verdes, com a sombra despojada no terreno; um pássaro que cantava no ramo mais alto, não deu pela ocupação maleável desta presença, e o peso dos músculos que se agarram aos ossos, esvaídos nos inúmeros passos, cresceu em pânico; o pássaro viajava ao longo do seu cantarolar mavioso; parei; escutava; a clara luz que atravessa os montes embateu nos nomes das coisas como flor, folha, esteva, pedra; surgi dessa nódoa do tempo, que nos embala, com estas sílabas e vocábulos; notado que a luz soltava as suas lágrimas dos elementos da natureza, exortando-a ao abandono das trevas, despi-me de preconceitos e beijei o chão e os galhos, prendi um reflexo que se desprendia duma gota de resina; o cascalho soou na redonda atmosfera, e curvei-me, pois, na fecunda direcção do barro e das raízes; sujeitei pernas e braços ao esforço da memória que soçobra das palavras aditadas ao chão da natureza, -- ímpetos da bela fala; manobras feitas em direcção aos versos com flores e barro, formaram ondas de sensações, apelos sentidos por braços e pernas, como luz arrancando a pele, -­- nem tudo o que o homem abraça são músculos da verdade; escutei o pânico que rastejava nos ombros quando se arrancam pedras e se constroem casas nuas e sem paredes, para habitar; um homem não sei donde, curvou-se à minha passagem, pedindo desculpa; não sei como fazer as malas para abalar para outro lugar, pensei; os mapas do mundo restam gaZeados, se extasiado passo as mãos pelo relvado.  

 

       

quinta-feira, agosto 14, 2025

modelações XXXIX

 

 Dança na Fonte Santa  Técnica mista - guache e lápis aguarela sobre papel
  29.5x39.5 Anos 20

 

 Viver é uma terna aventura? – ouço vozes no esquecimento do eterno! aqui, o império modelado de cera, a abstracta ordem que sobressai dos sonhos, é um desafio sobrante das angustias, o iníquo prazer de seda na floresta do arbitrário –, estar molemente no silêncio desafia a construção dos astros, o firmamento da violência, a causa das emoções evanescentes, como um arrepio de sono num medievo campo de batalha; moro, moramos na inerte vibração dos astros, e a beleza que sobra das flores arrepia-nos; toco a rosa no quintal, e o veludo acetinado das pétalas esvoaçantes azulam o olhar dos nervos, a perpétua ordem das coisas no cadinho da substância da luz; elas dançam o tango no minúsculo tempo sumptuoso; no grande átrio, onde o passar do tempo se alapa às paredes, como lagartixas no tecto do mundo e dos risos, despejamos a solenidade dos dias nos vazadouros; e, o fervor que esbarra na cal da parede é duro, e dói pelos olhos, na ementa do prazer – Esvaída a lucidez, o contorno dos espinhos alvitram incongruências, como remorsos vindos das verdades inacabadas, ou das pétalas que murcham; nos jardins das vitórias os faróis acendem luzes da ilusão –, se as emoções apodrecem no vazio, ergo-me em chuva de sonhos? O corpo sem a erosão do tempo alivia a penúria da existência –, mas por quanto tempo, no alpendre dos ninhos do amor, perduram as nobres cadências? – Estar virgem dos soluços da morte, é a mentira nua que me cerca; Um punhal atinge a saudade, arde o matiz do verde nas sombras da recordação; são peixes de outrora, folhas que caem, elogios da fome, a Mona Lisa dormindo; –, Está prestes a envenenar-se o céu da mente; um crime aproxima-se:

– solto a alegria das reverberações com a caneta –, mato a morte com as palavras, o pincel! – alivio a esmola da vida com os sapatos no chão; sou o detective das sombras que iluminam as árvores, os rios e a noite; navegando nas tertúlias o medo fica nas gavetas; acolho o teatro dos dias, a prosaica voz aberta; vago e solene, neste jardim de luvas, as horas apitam contra os escombros.