segunda-feira, fevereiro 09, 2026

modelações LII

 

 

 
A Palavra aprisionada - Pintura a óleo sobre tela

65x81cm Anos 00


A realidade é uma coisa estranha, abismos apitando na mente como danças de cavalos selvagens, nas pastagens dos sonhos; o mundo veste-se de cor-de-rosa e sangra; acelera-se a velocidade em busca do sigilo dos ventos -- aranha suspensa de fio de seda cuspido; vejo o coração das pedras bater forte com as dores das primaveras mecânicas, os olhos das pessoas suspendidas do arroz-doce, baba-de-camelo nas prateleiras fulgurantes; e, eu, que não acreditava em destinos voláteis, arremeto contra as rasuras, os medos cuspidos da vergonha, a doidice que me ronda inescrupulosamente; o dilatar das arrogâncias estranhando-me pesadamente, com os disparos sobre os crepúsculos, dá um tom musculado ao saber que ecoa no orbe; assim, constatando que a realidade se evapora na multidão, quando vão ao supermercado comprar um papo-seco e o custo superou a bondade dos tempos, aumentando, murcham os olhares vaporosos das nossas infâncias alegres -- a realidade é uma ratoeira! -- com a assimetria da verdade em andamento perverso, restam barões e soldados, como enxame voando nas alturas das glórias flutuantes; o pensamento corre como laranja exprimida em queixas da timidez, quando…; é incómodo pensar arrebatadamente, penso --, é como se o fisco arranhasse nas algibeiras; de qualquer modo, ao abordar este assunto olhando pelo espelho, observei, que as ligaduras que prendem o real ao irreal -- eram compostas por versos estranhos, e carinhosos:

   

Veredas que repartem caminhos

De gentes de todas as marés,

Veredas que trazem vizinhos

Veredas que levam ao que tu és

 

Veredas que todos percorrem

Com o som do sangue nas feridas,

Veredas que a todos movem

Nas veredas de todas as despedidas

 

Veredas que o vento nos traz  

Veredas que o vento nos leva,

Veredas que nos trazem a paz

No ventre do ondular da erva   

      

sexta-feira, janeiro 02, 2026

modelações LI

 modelações LI

Máscara  - Pintura a óleo sobre tela 
 4x(50x20) cm Anos 90

Nas abas da aflição cresce a abundância, é um sigilo de vertigem, uma crosta no pão salgado, um bocejo eterno para o amor dividido; a pessoa veste os seus trapos, mar de sargaços; pousa a mão sobre a saliva, deixa um buraco no ameno vento; ligeiramente cantando, inunda-se a voz, corta-se o eco com uma tesoura; na cidade eterna dançando com os tojos, cumpre-se a missão da dúvida sobre o primor da seda dos ossos, da queda dos joelhos viajantes; -- é um poço de segredos a nossa vida! -- nada cresce na vertigem do vinagre, e só a flutuação dos calcanhares alivia a dor; também há flores no jardim, é bem verdade! --um osso amargo na estrumeira, um fósforo ardendo na água, porem! Deseja-se um alívio? --sim! À beira mar plantado o corpo ferve, e a manteiga dos sonhos desfaz-se em borboletas descoloridas? -- nas ruas iluminadas há ecos da sonolência das estrelas; dormem os cascos dos cavalos nas pastagens adocicadas, e as trempes que sustentam as panelas sobre o fogo do carvão azedo, amuaram com o frio da cinza; sentado à lareira, viajo na solidão com o peso das orelhas gritando; solta-se um pó-de-arroz do eco da cidade, uma mancha aberta nas folhas das árvores, um despiste nos caminhos dos desejos; dias tortuosos como agulhas espetando os olhos avistam-se ao longe, na embriagada luminosidade; palavras crescem nas adegas dos venenos, entropias dos sons desaguam nas aparências dos cristais; na rua do meu vizinho dorme a alegria com uma tristeza doentia; a manta que cobre os seus pelos é uma pele de crocodilo latejante como asteróides numa bandeja; um triângulo de certezas é redondo e ninguém o agarra; sobra da água do mar o alívio das pedras; a bandeira das quinas é um lençol afogado que se colhe delirante nos jardins da praça pública; naturalmente, que digo tudo isto, com o medo de me arriscar a viver! -- as laranjas do Algarve são doces, mas por vezes têm uma casca grossa, --- é preciso uma faca bem afiada, digo eu, para abrir caminho para a doçura! -- Corações há que petrificam na insolvência dos dias. Solene caminhar ardendo aos soluços, no palácio Gulbenkian, os hinos rejubilam das mesas; o silêncio cresce como a ternura nos rostos dos bebés, -- se o algodão não mentir! 


domingo, novembro 30, 2025

modelações L

 

Sangue impetuoso -- Constituído por 6 quadros
Materiais diversos: Estampa impressa, pintura a tinta sintética sobre vidro, molduras de madeira, platex e plástico – Apito/brinquedo tradicional de cerâmica Anos 20

O dia está luminoso. Na esplanada amortecem as horas agrestes; é já Outono e as árvores pedem água! que bom! -- a fugidia aragem, a coroação dos olhos na distância sem sentido, o longo abano dos sentidos na frouxa mansidão; tudo é repassado por uma sonolência de sombras azuis, vizinhas do esquecimento; estar e não estar, pousar a mão na distracção dos segredos como se espremesse uma laranja num dormir pesado; a iluminação do fundo arrebol é estrita à abundância das sementes, dos orifícios que medram nas pedras anguladas, e nos soltos torrões; hibernados estão, na fragrância da inércia dos acordes, na moldura dos pastos que cantam zumbindo ao afagar dos ventos sedosos; sem surpresas passa um carro, não de besta! auto-móvel -- mas que rastos da lassidão deixa nos emblemas que arrastam a fervura dos sonhos! -- pesa a imensa bagatela de estar vivo, a lúcida iluminação dos poemas, a engrenagem que alimenta o tédio, a dor das virilhas que desandam num baloiçar do corpo; estar aqui na irremediável certeza, no bafo do vento e da luz, na poeira da metafísica dos olhos, nas interrogações que nos fazem os arbustos, as iníquas ervas restantes, desse verão de vagos impulsos agarrado aos lumes do sol ardente, estar aqui na frouxa dor da mansidão com a alegria inerte das entranhas, das vísceras, dos testículos em abandono da criação, tudo emerge da crosta terrena, da arrecadação dos pulsos nas arcadas sonantes; num azul de betume das nossas queixas, visitam-me abelhas presas ao açúcar do café, como mensageiras do óbvio -- estamos todos presos e soltos! É bom elaborar sentimentos, lentamente devagar, ter a renda da casa paga!    

sexta-feira, outubro 10, 2025

modelações XL

 

 Forças ocultas - Pintura a aguada sobre cartolina 
  100x65cm Anos 80

 

Os arbustos da vida são selvagens; crescem-lhes as raízes entre o turbilhão das multidões; espreitam fervorosamente pelas luzes da abundância, e nas línguas de fogo do desespero morre-se carnavalescamente, e soterrado; o universo cospe-nos do seu mistério, mas também uma banana, um ouriço ou um camelo; neste impasse, estou presente como uma onda espicaçada pelo vento; vejo as nuvens e os astros, a doçura de um rosto, a postura arrebatada de um olhar; sinto os poços da maldição na linha duma mão, na outra, crescendo em vertiginosos encontros, encosto-a ao rosto do fulgente amanhã como a dança dos alegres insectos; há flores nas bermas que pedem sol, quando, devagar, passo a mão pelas suas folhas aciduladas; no armazém das farturas envolvem-se plásticos sobre as sementes; enrolam o nome das coisas numa densa atmosfera, -- poeira dos segredos; percorri os montes atravessando os ramos verdes, com a sombra despojada no terreno; um pássaro que cantava no ramo mais alto, não deu pela ocupação maleável desta presença, e o peso dos músculos que se agarram aos ossos, esvaídos nos inúmeros passos, cresceu em pânico; o pássaro viajava ao longo do seu cantarolar mavioso; parei; escutava; a clara luz que atravessa os montes embateu nos nomes das coisas como flor, folha, esteva, pedra; surgi dessa nódoa do tempo, que nos embala, com estas sílabas e vocábulos; notado que a luz soltava as suas lágrimas dos elementos da natureza, exortando-a ao abandono das trevas, despi-me de preconceitos e beijei o chão e os galhos, prendi um reflexo que se desprendia duma gota de resina; o cascalho soou na redonda atmosfera, e curvei-me, pois, na fecunda direcção do barro e das raízes; sujeitei pernas e braços ao esforço da memória que soçobra das palavras aditadas ao chão da natureza, -- ímpetos da bela fala; manobras feitas em direcção aos versos com flores e barro, formaram ondas de sensações, apelos sentidos por braços e pernas, como luz arrancando a pele, -­- nem tudo o que o homem abraça são músculos da verdade; escutei o pânico que rastejava nos ombros quando se arrancam pedras e se constroem casas nuas e sem paredes, para habitar; um homem não sei donde, curvou-se à minha passagem, pedindo desculpa; não sei como fazer as malas para abalar para outro lugar, pensei; os mapas do mundo restam gaZeados, se extasiado passo as mãos pelo relvado.  

 

       

quinta-feira, agosto 14, 2025

modelações XXXIX

 

 Dança na Fonte Santa  Técnica mista - guache e lápis aguarela sobre papel
  29.5x39.5 Anos 20

 

 Viver é uma terna aventura? – ouço vozes no esquecimento do eterno! aqui, o império modelado de cera, a abstracta ordem que sobressai dos sonhos, é um desafio sobrante das angustias, o iníquo prazer de seda na floresta do arbitrário –, estar molemente no silêncio desafia a construção dos astros, o firmamento da violência, a causa das emoções evanescentes, como um arrepio de sono num medievo campo de batalha; moro, moramos na inerte vibração dos astros, e a beleza que sobra das flores arrepia-nos; toco a rosa no quintal, e o veludo acetinado das pétalas esvoaçantes azulam o olhar dos nervos, a perpétua ordem das coisas no cadinho da substância da luz; elas dançam o tango no minúsculo tempo sumptuoso; no grande átrio, onde o passar do tempo se alapa às paredes, como lagartixas no tecto do mundo e dos risos, despejamos a solenidade dos dias nos vazadouros; e, o fervor que esbarra na cal da parede é duro, e dói pelos olhos, na ementa do prazer – Esvaída a lucidez, o contorno dos espinhos alvitram incongruências, como remorsos vindos das verdades inacabadas, ou das pétalas que murcham; nos jardins das vitórias os faróis acendem luzes da ilusão –, se as emoções apodrecem no vazio, ergo-me em chuva de sonhos? O corpo sem a erosão do tempo alivia a penúria da existência –, mas por quanto tempo, no alpendre dos ninhos do amor, perduram as nobres cadências? – Estar virgem dos soluços da morte, é a mentira nua que me cerca; Um punhal atinge a saudade, arde o matiz do verde nas sombras da recordação; são peixes de outrora, folhas que caem, elogios da fome, a Mona Lisa dormindo; –, Está prestes a envenenar-se o céu da mente; um crime aproxima-se:

– solto a alegria das reverberações com a caneta –, mato a morte com as palavras, o pincel! – alivio a esmola da vida com os sapatos no chão; sou o detective das sombras que iluminam as árvores, os rios e a noite; navegando nas tertúlias o medo fica nas gavetas; acolho o teatro dos dias, a prosaica voz aberta; vago e solene, neste jardim de luvas, as horas apitam contra os escombros.    

 

quinta-feira, junho 05, 2025

modelações XXXVIII

 

 Modelações XXXVIII

 
Em Movimento - Pintura a óleo sobre madeira prensada

59x70cm  Anos70

 

O 25 de Abril e a memória encantada; do ante diz-se; e do até lá…, o subir do monte na glória vã de um sísifo, e os espinhos dolorosos da ventania, derrubando troncos e braços, com o frenesim das mordaças –, do empurrar gentes exangues e tolhidas que ficam na amargura despovoada e abandono; espaços insalubres dos territórios alheios dos muitos continentes; do viver de pés descalços nos caminhos enxertados das arruaças; da sobrevivência alcantilada e fria, como musgos arrebatados e impotentes, agarrados ao chão como lesmas desvalidas, que se enfunam. Entrementes. A máquina de furar olhos e, aquela, de esgravatar nas orelhas, empurrar as palavras para os calaboiços, comprimindo-as, deixando rasuras de sangue, atrofiando os adjectivos nas masmorras do insignificante –, o antes que adormece na soleira da porta, o durante que dura e rói; até lá, o peso da montanha sobre o vale; a dor inquieta do silêncio, o martelo nos dentes, a boca encarnada cuspindo sangue; no café à mesa, a conversa em surdina – poderá a voz romper o ar, prosseguir no espaço e cair nas orelhas de um outro que mastiga as vísceras com dentes de cão, ódio musculado de grilhetas – nunca se sabe! – o que ensombra as ruas, o que pesa sem se ver, o que fere e se expande, o que leva para a escuridão, o que dorme nos vãos de escadas e rói degraus; em rostos desvanecidos vírus sem nome! Lá fora há hinos, colchas penduradas nas ideias em circulação; chegam pelos fios iluminados, pelos correios de mão em mão, pelas espiras que soam cantigas, pelos livros e jornais escondidos nos forros dos casacos; gatunos que roubam a claridade escondida, abocanhada na ponta dos lápis azuis vermelhos, (da censura), oferecendo-a incólume e resolutamente na eira; postigos que se abrem; da esconsa quietude daqui, ouvem-se tiros lá longe; os generais cospem anedotas! Noivas choram, mães vestem panos negros, duros como cavernas, em lugarejos soturnos. O pão sobre a mesa esfarela-se em surdina. Nos arraiais dançam com frio nas orelhas e mangas arregaçadas; arrasta-se a solidão e o clamor do orgulho; um rumor de passos ouve-se na varanda, no sopé da montanha ruge o absurdo; estica-se o elástico por debaixo das mesas, nas associações, nas escolas, nas cantinas, nos redemoinhos que se mexem escondidos, presos às borbulhas do viver, ou morrer; um ritual de pressupostos e um níquel de ânimo avança, e as ruas enchem-se entoando os punhos, abrindo a escuridão das algemas; estamos lá, a parada move-se, ouvem-se vozes que choram! De alegria.

Mastigando democracia num inverno acrobático, 50 mastigados anos passaram; pão com manteiga e vidros de aflição, enroscados nos parafusos do destino –  pão ázimo; alapardados de mosquitos da liberdade, correndo atrás dos entulhos saudosos, cá estamos! – Há vozes que oiço –, o 25 de Abril será todos os dias… ou não será! Dizem, de lá, os mortos que nos alegraram.