65x81cm Anos 00
A realidade é uma coisa estranha, abismos apitando na mente como danças de cavalos selvagens, nas pastagens dos sonhos; o mundo veste-se de cor-de-rosa e sangra; acelera-se a velocidade em busca do sigilo dos ventos -- aranha suspensa de fio de seda cuspido; vejo o coração das pedras bater forte com as dores das primaveras mecânicas, os olhos das pessoas suspendidas do arroz-doce, baba-de-camelo nas prateleiras fulgurantes; e, eu, que não acreditava em destinos voláteis, arremeto contra as rasuras, os medos cuspidos da vergonha, a doidice que me ronda inescrupulosamente; o dilatar das arrogâncias estranhando-me pesadamente, com os disparos sobre os crepúsculos, dá um tom musculado ao saber que ecoa no orbe; assim, constatando que a realidade se evapora na multidão, quando vão ao supermercado comprar um papo-seco e o custo superou a bondade dos tempos, aumentando, murcham os olhares vaporosos das nossas infâncias alegres -- a realidade é uma ratoeira! -- com a assimetria da verdade em andamento perverso, restam barões e soldados, como enxame voando nas alturas das glórias flutuantes; o pensamento corre como laranja exprimida em queixas da timidez, quando…; é incómodo pensar arrebatadamente, penso --, é como se o fisco arranhasse nas algibeiras; de qualquer modo, ao abordar este assunto olhando pelo espelho, observei, que as ligaduras que prendem o real ao irreal -- eram compostas por versos estranhos, e carinhosos:
Veredas que repartem caminhos
De gentes de todas as marés,
Veredas que trazem vizinhos
Veredas que levam ao que tu és
Veredas que todos percorrem
Com o som do sangue nas feridas,
Veredas que a todos movem
Nas veredas de todas as despedidas
Veredas que o vento nos traz
Veredas que o vento nos leva,
Veredas que nos trazem a paz
No ventre do ondular da erva
