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segunda-feira, fevereiro 09, 2026

modelações XLIII

 

 modelações XLIII

 
A Palavra aprisionada - Pintura a óleo sobre tela

65x81cm Anos 00


A realidade é uma coisa estranha, abismos apitando na mente como danças de cavalos selvagens, nas pastagens dos sonhos; o mundo veste-se de cor-de-rosa e sangra; acelera-se a velocidade em busca do sigilo dos ventos -- aranha suspensa de fio de seda cuspido; vejo o coração das pedras bater forte com as dores das primaveras mecânicas, os olhos das pessoas suspendidas do arroz-doce, baba-de-camelo nas prateleiras fulgurantes; e, eu, que não acreditava em destinos voláteis, arremeto contra as rasuras, os medos cuspidos da vergonha, a doidice que me ronda inescrupulosamente; o dilatar das arrogâncias estranhando-me pesadamente, com os disparos sobre os crepúsculos, dá um tom musculado ao saber que ecoa no orbe; assim, constatando que a realidade se evapora na multidão, quando vão ao supermercado comprar um papo-seco e o custo superou a bondade dos tempos, aumentando, murcham os olhares vaporosos das nossas infâncias alegres -- a realidade é uma ratoeira! -- com a assimetria da verdade em andamento perverso, restam barões e soldados, como enxame voando nas alturas das glórias flutuantes; o pensamento corre como laranja exprimida em queixas da timidez, quando…; é incómodo pensar arrebatadamente, penso --, é como se o fisco arranhasse nas algibeiras; de qualquer modo, ao abordar este assunto olhando pelo espelho, observei, que as ligaduras que prendem o real ao irreal -- eram compostas por versos estranhos, e carinhosos:

   

Veredas que repartem caminhos

De gentes de todas as marés,

Veredas que trazem vizinhos

Veredas que levam ao que tu és

 

Veredas que todos percorrem

Com o som do sangue nas feridas,

Veredas que a todos movem

Nas veredas de todas as despedidas

 

Veredas que o vento nos traz  

Veredas que o vento nos leva,

Veredas que nos trazem a paz

No ventre do ondular da erva   

      

sexta-feira, janeiro 02, 2026

modelações XLII

 modelações XLII

Máscara  - Pintura a óleo sobre tela 
 4x(50x20) cm Anos 90

Nas abas da aflição cresce a abundância, é um sigilo de vertigem, uma crosta no pão salgado, um bocejo eterno para o amor dividido; a pessoa veste os seus trapos, mar de sargaços; pousa a mão sobre a saliva, deixa um buraco no ameno vento; ligeiramente cantando, inunda-se a voz, corta-se o eco com uma tesoura; na cidade eterna dançando com os tojos, cumpre-se a missão da dúvida sobre o primor da seda dos ossos, da queda dos joelhos viajantes; -- é um poço de segredos a nossa vida! -- nada cresce na vertigem do vinagre, e só a flutuação dos calcanhares alivia a dor; também há flores no jardim, é bem verdade! --um osso amargo na estrumeira, um fósforo ardendo na água, porem! Deseja-se um alívio? --sim! À beira mar plantado o corpo ferve, e a manteiga dos sonhos desfaz-se em borboletas descoloridas? -- nas ruas iluminadas há ecos da sonolência das estrelas; dormem os cascos dos cavalos nas pastagens adocicadas, e as trempes que sustentam as panelas sobre o fogo do carvão azedo, amuaram com o frio da cinza; sentado à lareira, viajo na solidão com o peso das orelhas gritando; solta-se um pó-de-arroz do eco da cidade, uma mancha aberta nas folhas das árvores, um despiste nos caminhos dos desejos; dias tortuosos como agulhas espetando os olhos avistam-se ao longe, na embriagada luminosidade; palavras crescem nas adegas dos venenos, entropias dos sons desaguam nas aparências dos cristais; na rua do meu vizinho dorme a alegria com uma tristeza doentia; a manta que cobre os seus pelos é uma pele de crocodilo latejante como asteróides numa bandeja; um triângulo de certezas é redondo e ninguém o agarra; sobra da água do mar o alívio das pedras; a bandeira das quinas é um lençol afogado que se colhe delirante nos jardins da praça pública; naturalmente, que digo tudo isto, com o medo de me arriscar a viver! -- as laranjas do Algarve são doces, mas por vezes têm uma casca grossa, --- é preciso uma faca bem afiada, digo eu, para abrir caminho para a doçura! -- Corações há que petrificam na insolvência dos dias. Solene caminhar ardendo aos soluços, no palácio Gulbenkian, os hinos rejubilam das mesas; o silêncio cresce como a ternura nos rostos dos bebés, -- se o algodão não mentir! 


sexta-feira, outubro 10, 2025

modelações XL

 

 Forças ocultas - Pintura a aguada sobre cartolina 
  100x65cm Anos 80

 

Os arbustos da vida são selvagens; crescem-lhes as raízes entre o turbilhão das multidões; espreitam fervorosamente pelas luzes da abundância, e nas línguas de fogo do desespero morre-se carnavalescamente, e soterrado; o universo cospe-nos do seu mistério, mas também uma banana, um ouriço ou um camelo; neste impasse, estou presente como uma onda espicaçada pelo vento; vejo as nuvens e os astros, a doçura de um rosto, a postura arrebatada de um olhar; sinto os poços da maldição na linha duma mão, na outra, crescendo em vertiginosos encontros, encosto-a ao rosto do fulgente amanhã como a dança dos alegres insectos; há flores nas bermas que pedem sol, quando, devagar, passo a mão pelas suas folhas aciduladas; no armazém das farturas envolvem-se plásticos sobre as sementes; enrolam o nome das coisas numa densa atmosfera, -- poeira dos segredos; percorri os montes atravessando os ramos verdes, com a sombra despojada no terreno; um pássaro que cantava no ramo mais alto, não deu pela ocupação maleável desta presença, e o peso dos músculos que se agarram aos ossos, esvaídos nos inúmeros passos, cresceu em pânico; o pássaro viajava ao longo do seu cantarolar mavioso; parei; escutava; a clara luz que atravessa os montes embateu nos nomes das coisas como flor, folha, esteva, pedra; surgi dessa nódoa do tempo, que nos embala, com estas sílabas e vocábulos; notado que a luz soltava as suas lágrimas dos elementos da natureza, exortando-a ao abandono das trevas, despi-me de preconceitos e beijei o chão e os galhos, prendi um reflexo que se desprendia duma gota de resina; o cascalho soou na redonda atmosfera, e curvei-me, pois, na fecunda direcção do barro e das raízes; sujeitei pernas e braços ao esforço da memória que soçobra das palavras aditadas ao chão da natureza, -- ímpetos da bela fala; manobras feitas em direcção aos versos com flores e barro, formaram ondas de sensações, apelos sentidos por braços e pernas, como luz arrancando a pele, -­- nem tudo o que o homem abraça são músculos da verdade; escutei o pânico que rastejava nos ombros quando se arrancam pedras e se constroem casas nuas e sem paredes, para habitar; um homem não sei donde, curvou-se à minha passagem, pedindo desculpa; não sei como fazer as malas para abalar para outro lugar, pensei; os mapas do mundo restam gaZeados, se extasiado passo as mãos pelo relvado.  

 

       

quinta-feira, agosto 14, 2025

modelações XXXIX

 

 Dança na Fonte Santa  Técnica mista - guache e lápis aguarela sobre papel
  29.5x39.5 Anos 20

 

 Viver é uma terna aventura? – ouço vozes no esquecimento do eterno! aqui, o império modelado de cera, a abstracta ordem que sobressai dos sonhos, é um desafio sobrante das angustias, o iníquo prazer de seda na floresta do arbitrário –, estar molemente no silêncio desafia a construção dos astros, o firmamento da violência, a causa das emoções evanescentes, como um arrepio de sono num medievo campo de batalha; moro, moramos na inerte vibração dos astros, e a beleza que sobra das flores arrepia-nos; toco a rosa no quintal, e o veludo acetinado das pétalas esvoaçantes azulam o olhar dos nervos, a perpétua ordem das coisas no cadinho da substância da luz; elas dançam o tango no minúsculo tempo sumptuoso; no grande átrio, onde o passar do tempo se alapa às paredes, como lagartixas no tecto do mundo e dos risos, despejamos a solenidade dos dias nos vazadouros; e, o fervor que esbarra na cal da parede é duro, e dói pelos olhos, na ementa do prazer – Esvaída a lucidez, o contorno dos espinhos alvitram incongruências, como remorsos vindos das verdades inacabadas, ou das pétalas que murcham; nos jardins das vitórias os faróis acendem luzes da ilusão –, se as emoções apodrecem no vazio, ergo-me em chuva de sonhos? O corpo sem a erosão do tempo alivia a penúria da existência –, mas por quanto tempo, no alpendre dos ninhos do amor, perduram as nobres cadências? – Estar virgem dos soluços da morte, é a mentira nua que me cerca; Um punhal atinge a saudade, arde o matiz do verde nas sombras da recordação; são peixes de outrora, folhas que caem, elogios da fome, a Mona Lisa dormindo; –, Está prestes a envenenar-se o céu da mente; um crime aproxima-se:

– solto a alegria das reverberações com a caneta –, mato a morte com as palavras, o pincel! – alivio a esmola da vida com os sapatos no chão; sou o detective das sombras que iluminam as árvores, os rios e a noite; navegando nas tertúlias o medo fica nas gavetas; acolho o teatro dos dias, a prosaica voz aberta; vago e solene, neste jardim de luvas, as horas apitam contra os escombros.    

 

quinta-feira, junho 05, 2025

modelações XXXVIII

 

 Modelações XXXVIII

 
Em Movimento - Pintura a óleo sobre madeira prensada

59x70cm  Anos70

 

O 25 de Abril e a memória encantada; do ante diz-se; e do até lá…, o subir do monte na glória vã de um sísifo, e os espinhos dolorosos da ventania, derrubando troncos e braços, com o frenesim das mordaças –, do empurrar gentes exangues e tolhidas que ficam na amargura despovoada e abandono; espaços insalubres dos territórios alheios dos muitos continentes; do viver de pés descalços nos caminhos enxertados das arruaças; da sobrevivência alcantilada e fria, como musgos arrebatados e impotentes, agarrados ao chão como lesmas desvalidas, que se enfunam. Entrementes. A máquina de furar olhos e, aquela, de esgravatar nas orelhas, empurrar as palavras para os calaboiços, comprimindo-as, deixando rasuras de sangue, atrofiando os adjectivos nas masmorras do insignificante –, o antes que adormece na soleira da porta, o durante que dura e rói; até lá, o peso da montanha sobre o vale; a dor inquieta do silêncio, o martelo nos dentes, a boca encarnada cuspindo sangue; no café à mesa, a conversa em surdina – poderá a voz romper o ar, prosseguir no espaço e cair nas orelhas de um outro que mastiga as vísceras com dentes de cão, ódio musculado de grilhetas – nunca se sabe! – o que ensombra as ruas, o que pesa sem se ver, o que fere e se expande, o que leva para a escuridão, o que dorme nos vãos de escadas e rói degraus; em rostos desvanecidos vírus sem nome! Lá fora há hinos, colchas penduradas nas ideias em circulação; chegam pelos fios iluminados, pelos correios de mão em mão, pelas espiras que soam cantigas, pelos livros e jornais escondidos nos forros dos casacos; gatunos que roubam a claridade escondida, abocanhada na ponta dos lápis azuis vermelhos, (da censura), oferecendo-a incólume e resolutamente na eira; postigos que se abrem; da esconsa quietude daqui, ouvem-se tiros lá longe; os generais cospem anedotas! Noivas choram, mães vestem panos negros, duros como cavernas, em lugarejos soturnos. O pão sobre a mesa esfarela-se em surdina. Nos arraiais dançam com frio nas orelhas e mangas arregaçadas; arrasta-se a solidão e o clamor do orgulho; um rumor de passos ouve-se na varanda, no sopé da montanha ruge o absurdo; estica-se o elástico por debaixo das mesas, nas associações, nas escolas, nas cantinas, nos redemoinhos que se mexem escondidos, presos às borbulhas do viver, ou morrer; um ritual de pressupostos e um níquel de ânimo avança, e as ruas enchem-se entoando os punhos, abrindo a escuridão das algemas; estamos lá, a parada move-se, ouvem-se vozes que choram! De alegria.

Mastigando democracia num inverno acrobático, 50 mastigados anos passaram; pão com manteiga e vidros de aflição, enroscados nos parafusos do destino –  pão ázimo; alapardados de mosquitos da liberdade, correndo atrás dos entulhos saudosos, cá estamos! – Há vozes que oiço –, o 25 de Abril será todos os dias… ou não será! Dizem, de lá, os mortos que nos alegraram.  

 

domingo, maio 25, 2025

modelações XXXVII

 

 
Ausências
 Pintura a óleo e lápis de cera sobre fundo de madeira
 96x64 Anos 10
 
Vogando no sentido aéreo da existência, na transparência da emoção sob as curvas desenhadas dos jardins, sobre a relva, debaixo dos ramos e sua sombra projectada na glória dos tímidos passos; tilintando as pegadas, esfregando os lençóis dos desejos, despojos dos sonhos ultravioletas acomodando as ambições veneráveis dos sentidos como substância palpável; andar de esquecimento à parca realidade circundante, volátil abeiramento do outro e suas glórias verticais ascendendo, mitigando; – sigo a névoa deste caminhar, pisar dos meus passos deambulando na irmandade do folhedo; jardim de árvores roçagantes incendiando a auto-estima na praça pública; alegre ribeiro dialogando nas margens; o cheiro do alecrim nestas palavras, digo, torpedeando os seus segredos, os seus ângulos secretos que mansamente nos atormentam; esta púbica saudade de mim sem transe no vértice prosaico da hora, arrumando o quarto de lua no átrio da casa; o corpo desolado num arco-íris permanecendo intacto e fortuito, fermentando na lonjura, esponja de sangue abreviada num tempo de dúvida e sigilo; os continentes da solidão movendo-se na incerteza das promessas –, corro, e regresso entre os ramos que me adornam como coroas duma alegria sustida, suspensa e balançante; surdina de emoções roçando a pele como pássaros cantando nos nervos –, Ó pureza suplicante ajeitada à planta dos pés que caminham na sombra das rosas e dos temores; espigas, tão duras na manhã silvestre, caindo este prazer no chão que a terra veste; flores do campo que me olham no lilás dos seus olhares crescendo, balão ao som dos ritmos banais e destruidores; torturar a realidade, procurando-a como formiga no carreiro, dar voz ao silêncio sacudido pelas palavras. Mutilados encontros.