60º parágrafo
... a solidão, a presença da não presença de algo em nós, a morte viva a gratidão do absoluto, penso.
21.01.12
59º parágrafo
... é possível dizer de qualquer coisa sem dizer de mim?
12.01.12
58ºparágrafo
... Quando era moço tive uma explicadora, não sei já em que disciplina, que numa conversa casual com os explicandos perguntou aos ditos e a mim: - também pensa que a mulher não é tão inteligente como o homem? Ao que eu respondi – metade, insistiu e eu voltei a responder o mesmo. Estávamos nos anos 60 do século passado. A professora fez um gesto acabrunhado e calou-se.
Fiquei a pensar naquilo e cheguei à conclusão de que tinha dado uma imagem errada do que queria dizer; ao dizer “metade” referia-me à unidade como representante do homem e da mulher, logo “metade” seria igual ao homem, pois este era a outra metade.
Passados 50 anos ainda guardo esse remorso na minha consciência, pois nunca mais tive ocasião de desfazer o equivoco.
02.01.12
57 parágrafo
... Produz-se uma arroba de batatas e imprime-se uma nota de valor correspondente, as batatas desaparecem, comem-se, o que deverá acontecer à nota? Extrai-se petróleo e imprimem-se dólares, o petróleo é consumido, deveriam essas notas serem retiradas de circulação senão temos a inflação como resultado natural desta incongruência; nesta situação querer reduzir a inflação aquém desta disparidade é como se quisesse-mos desmaterializar a matéria, continuar a produzir moeda sem ter em conta a produção efectiva é desmaterializar toda a economia, temos então uma economia virtual, penso.
20.12.11
O, sol, palavra
O, Sol, astro
O, sol, abstracto que para dentro da palavra arrasto.
E o, Sol, na memória do vento procurando desvendar o seu intento!
E o, Sol, com a razão de ser abraçando o ventre do meu ver!
E o, Sol, que de cinzento não tem nada
iluminando a palavra sol numa madrugada alada!
- a poesia não tem data
não tem assinatura
é procura do ser
e sua abertura. –
e o, Sol, só Sol
com razão ou sem ela
abre na imensa natura
uma maior janela.
07.12.11
55º parágrafo
... escrevo com o delírio sepulcral :
destino sem fronteiras e motivo da palidez dos dias, senda de inválidos labirintos, cunha travando os oceanos;
escrevo sem letras estas letras na deslizante sensação de existir.
Escrevo na manhã exótica um romance de água com o brilho impróprio das naufragadas palavras.
Incrustado no vento tento soprar na árvore do tempo.
ZERO de FULGOR, penso.
30.11.11
54º parágrafo
... de longe o rio da memória corre sob a sombra das palavras: - de manhã, em jejum, ainda somos todos ligeiramente amigos;
sossego o coração com um empréstimo à tristeza; A solidão enrola-se numa manta de fome,
nas alturas da voz o absinto da verdade pólvora dos nervos a explodir.
Sem saudades mando esta carta ao futuro, penso.
11.11.11
53º parágrafo
... procuro na palavra o espaço de plantar a árvore, penso.
10.11.11
52º parágrafo
...há, neste tempo, uma casca de metal revestindo os dias que não deixa a embriagues do vento soar, penso.
02.11.11
51º parágrafo
... Estendo a perna e sobre uma réstia de luz pesando no joelho, interrogo: - estou vivo para quê?
26.10.11
50º parágrafo
Havia uma angústia de cemitério , contradição ferroando pequenos sentimentos, quase um caos profanador da unidade necessária, e, isto impunha-se aos dias de vida como uma rosa de pétalas de espinhos.
- Eu expandia-me e o Universo contraía-se?!
Esta palavra quando pronunciada neste sentido empurrava a minha compreensão para um abismo silencioso, havia qualquer coisa no ar de que o meu corpo todo se ressentia, metade daquela palavra parecia estar escrita ao contrário e obrigava-me a rodar de pernas para o ar.
Afinal o Universo todo se expande!
E que alívio isso me dá, como admiro toda esta sincronia planetária onde o meu eu não esbarra com contextos duma linguagem burocrática, penso.
10.10.11
49º parágrafo
... pela manhã cheguei ao restaurante e tirei as sandálias para chamar o empregado:- Sente-se onde desejar, há muito que os fregueses nos abandonaram; Deseja!.., quero, duas-palavras-inteiras o saleiro e um café bem quente.
- O Senhor é filósofo!...comentou o empregado em tom de pergunta com uma delicadeza compreensiva.
-sou um poeta descalço, pela manhã sou apenas e ainda meio-poeta degustando duas palavras inteiras ao pequeno almoço, peço sempre sal no caso de mas servirem insossas; - disse um filósofo que abordava a questão existencial pelo lado do misticismo das palavras que procedendo assim todos os dias um dia seria um inteiro poeta.
saí e não me lembrei das sandálias. Já na rua observei com os meus botões: esta conversa pareceu-me não ter oxidações ferrugentas, além disso não quero engordar, penso.
02.10.11
48º parágrafo
... palavra inaugural é quando o universo se liberta do "ponto final", penso.
21.09.11
47º parágrafo
... os poetas escrevem com palavras vivas mas a diária realidade alimenta-se mais de palavras mortas, penso.
17.09.11
46º parágrafo
... Perdi a existência por não ter escrito.
Estou vendo duas palmeiras, colunas de pedra rústica, um vale espraiando-se em espaço aberto até um mar ao fundo.
Imperador Romano, diria; - abraço esta Terra Minha com a espada reluzente, coloco nela as minhas colunas, a minha esquadra o meu jardim!
Faraó, na sua glória de Sol acrescentaria esta dádiva mais à sua pose Divina.
Sobrevivente das Cavernas pisaria a Terra com as Colunas ainda em sonho e diria: - o que é isto que me rodeia tão perto e tão longe?
Dito e escrito isto, sinto porventura que continuo existindo perante a exuberância das coisas o silencio do espaço e o vento cingido às copas das árvores, penso.
08.09.11
45º parágrafo
...o copo côncavo agudiza ecoando na palavra no som de copo, o som soando soa o corpo, o corpo copo soando soa o côncavo copo, penso.
23.06.11
44º parágrafo
... quando entrei naquela casa todo o espaço estava cheio e leve, havia qualquer coisa de subtil na atmosfera que subtraía o peso aos abjectos, penso.
13.06.11
43º parágrafo
... o espaço é o lado visível do tempo, penso.
03.06.11
42º parágrafo
... é aqui na magia do encontro do ser colado ao dia, com o olho nu da ternura, que abrigo este querer de querer a palavra e o corpo inteiro. Sólida razão. Caminho sem reservas do dia completo, de musas abrigadas nas cascas dos caracóis; é aqui que estou, onde a terra acaba e o corpo começa e as árvores crescem em sílabas palavras em local com corpo e marés, constelação de pedras, em redor do silêncio, é aqui que estou.
24.05.11
41º parágrafo
... busco na memória antiga o que no silêncio das veias outrora fecundava a terra, penso
02.05.11
40º parágrafo
... tirar à cal da parede as palavras sem resíduos é saber que o dia é vegetal, penso.
05.04.11
38º parágrafo
...perscrutando o futuro com palavras ainda sem corpo, não mais do que buracos no tempo obtemos, penso.
20.03.11
37º parágrafo
... de todo o pensamento e cultura grega clássica o mais importante do seu legado é o ter desvinculado o pensamento da crença e ter colocado lá a permanente interrogação, penso.
04.03.11
36º parágrafo
... não estamos no "fim da História", estamos sim no fim do não à História, penso.
23.o2.11
35º parágrafo
... se não fosse a realidade que se transforma para que serviam as palavras e os muitos sentimentos?
18.02.11
34º parágrafo
...estou pensando, mas o que acrescento são buracos ao universo, penso.
11.02.11
33º parágrafo
... haveria peixe se não houvesse mar, e poderia eu existir se não houvesse universo?
03.02.11
32º parágrafo
... para forjar pensamentos tenho que alimentar o cérebro com carvão em brasa, penso.
13.01.11
31º parágrafo
... será porque o sol não se vê a ele que cada um de nós irrompeu da escuridão, para o ver, penso.
01.01.11
30º parágrafo
... só depois de morrer vou acreditar que morri, até lá sou eterno, penso.
10.12.10
29º parágrafo
... uma sociedade que necessita de tanta "vigilância" é como um corpo doente a sobreviver à custa de antibióticos, penso.
27.11.10
28ª parágrafo
... O fim de semana passado estive acampado, que tal! até rima; passei aí perto de ti se é que estavas aí, e esta que continua rimando! fui parar a Aljezur estrear a tenda ligeira que se abre numa brincadeira o pior foi que do céu caiu água como da torneira e a tenda quase ia indo parar à ribeira e tive que dormir no carro mas tudo passou sem percalço de monta e estou de volta para te dar esta notícia quase tonta!
04.11.10
27º parágrafo
... Hoje é terça e há um rastilho de domingo ainda por incendiar um sol que nutre o silêncio uma voz que abre o corpo um destino nas palavras por dizer; hoje é terça e ainda é o sábado na madrugada de domingo quanto o crepitar terno e são de; quando o sol olha as flores para dentro de elas e me interroga; hoje é terça quando ainda quarta se aproxima emboscada numa luz em gritos e terna combustão de mim.
12.10.10
26º parágrafo
... quando o amor se abre entre as pernas as palavras ficam vermelhas, penso.
23.09.10
25º parágrafo
...vivo,com o corpo entre parêntesis, ao lado do infinito, penso.
03.09.10
24º parágrafo
... ontem, disse palavras com os olhos, e elas ficaram no espelho, coloridas.
23.08.10
23º parágrafo
... intempéries absurdas no horizonte desfilam diante das rosas do jardim, penso.
15.07.10
22º parágrafo
... escrever é um exercício infindável de musculatura e sorrisos brancos.
22.06.10
21º parágrafo
... devemos ao sistema financeiro a chuva, rigorosamente, pensava eu quando não chovia.
03.06.10
20º parágrafo
... quando sonho não serão os meus braços que estão pensando?
24.05.10
19º parágrafo
... hoje encontrei o silêncio debaixo do travesseiro, onde havia ruídos de ontem.
13.05.10
18º parágrafo
... estava eu no café, procurando entender o mundo, saboreando as dádivas da natureza com a alegria do sol que ora se esconde ora aparece, pensava:
-a Luísa está sem casa, será que a chuva esburacou tanto as telhas que , coitada, deambula agora em algures? isto pensava eu quando escrevi;
" diálogo com uma palavra":
-òh palavra, que dizes tu?
a palavra:
- eu não digo, tu é que dizes!
- se não dizes tu, o que digo eu, palavra?
a palavra:
- tu não dizes nada, porque eu é que sou a palavra!
A olhar para o tampo da mesa fiquei pensando:
vou escrever um livro de poemas, talvez um só poema e dei-lhe um título, " abstracção do poema abstracto",
seria assim :
as vírgulas de pernas para o ar entram no poema como a chuva no terreno, etc etc.
e:
cada vez que um amor se encontra pendurado nas pernas duma abelha, vem o sol em grande algazarra burilar os buracos do vento,
etc etc.
ou:
agora que o espaço se abriu de encontro aos joelhos da montanha que fazer com a alegria que as palavras têm no ventre, etc etc.
quando pensava que tinha encontrado um rumo para o poema, apercebi-me que de há tempos para cá, desde que comi brutamente um pedaço de chocolate preto, uma ligeira agonia subjaz pesando no pensar como se tivesse engolido sal a mais.
enfim, tomei tudo isto por vontade de escrever apenas, arrumei as coisas e vi-me embora.
um grande abraço e até breve.
18.04.10
17º parágrafo
... que cão me mordeu, foi aquele sapato de marca!
09.04.10
16º parágrafo
... em crepúsculos de intimo olhar moram as palavras a nascer
30.03.10
15º parágrafo
... são como fósforos acendendo-se na mente as palavras que nascem involuntárias.
03.03.10
14º parágrafo
... quando penso estou eu dentro do pensamento ou está o pensamento dentro de mim?
10.03.23
13º parágrafo:
... se mexo um braço na viva voz do tempo, construo um saber antigo que a mim me foi dado.
10.02.10
12º parágrafo:
... eu penso o universo, mas pensará o universo em mim?
01.01.21
11º parágrafo:
... com o Sol ao centro e a Terra a entrar em nova elipse saudemos o corpo, a sua casa e as nossas vidas.
01.01.10
10º parágrafo:
... se eu pudesse viver sem palavras lambia os calcanhares e adormecia, penso.
18.12.09
9º parágrafo:
... prosélitos afâs de minúsculas palavras invertem a ordem dos chouriços gordos,
pode ler-se no pensamento de minorias loucas.
12.11.09
8º parágrafo:
... pensando ou não sou sempre mais do que eu mesmo.
07.11.09
7º parágrafo:
... rasgar a pele com uma palavra, - eis o que penso pensando em escrever, se pensasse ser poeta.
04.11.09
6º parágrafo:
... bem cheirosos pensamentos advogando
entre Lisboa e Gorjões em viajem, com conversas de merda falando.
30.10.09
5º parágrafo:
... representação teatral com um só acto, uma só cena, uma só fala e sem actor;
voz fora do palco:
- , aqui só entra o outro!...
Frase repetida em todas as línguas e em todos os idiomas
23.10.09
4º parágrafo:
... entre a matéria e o meu pensar há um vazio, o qual nomeio-o eu de - "o grande pensamento"
15.10.09
3º parágrafo:
... por vezes, é na sombra das palavras que penso.
2º parágrafo:
... pensando bem, nunca pensei nada.
1º parágrafo :
... estou pensando que poderia pensar, mas não penso o que me deixa pensativo.