quarta-feira, maio 23, 2018

O algoritmo da palavra




O Inframundo melancólico
             - roçagar de sedas

O azul maléfico das metáforas
             - vinho adormecido

O corpo sem cabresto
             - língua de fora do ecrã  

Os olhos vermelhos das espadas
             - verdes campos costurados

O sangue azul dos insectos
             - clepsidra do otário tempo

As flores que nos esperam
            - roubado ventre ao sol

 O lado oculto do pão
             - poeta com faca nos dentes



segunda-feira, abril 30, 2018

O algoritmo da palavra




Êú não sei o que dizer, pronto estava querendo falar do meu ser de menino, nesse êú antigo onde dormia e acordava tranquilamente; o êú que tinha a fantasia de uma bola de cristal por onde via as sombras de mim subindo em animados fontanários; hoje quero voltar ai, de onde este sítio desfalecido até àquelas margens sem cansaço e com olhos grandes de ver amendoeiras, pinheiros e ninhos de pássaros com seus ovos mesclados de pintinhas coloridas; pergunto onde estará esse êú, que quero animar-me de vê-lo, o que fez com a sua trança de tempo, se é que amareleceu de um estio invernoso e se pasto é de mim ainda
Êú quero singrar na avenida aberta desta comoção que me leva ao dólmen dos meus braços, quando ainda de gatinhas pisava os arabescos do que por ai apalpava, - se ê ú agora for de mãos dadas a esse meu encontro, que silêncio de não encontrar ai algum êú, nem mesmo na esquina do meu olhar, - sei agora que no berço pairava um pequeno fogo de revolta, uma acidez de choro birrento, mau génio de rabo levantado ungido de desejos travessos, - meu corpo será de uma fofinha carne, talvez já meu êú questionasse o porquê de não voar se era pássaro na gaiola
Daquele nimbo de fofinha carne dizem-me que danado me agarrava às maminhas de mulher amiga, e gulosamente as chupava, quando ainda escurecido o ê ú se encontrava na tépida macieza da pele, - estava lá afinando minha gula de pequeno vampirinho sugando a natada, mas nada disso recobra claridade, o êú era ainda aquele nada do coração que bombeia e não palpita, ânsia com sono de terra lampejando, foragido carocinho da líquida sala da mãe, e se calhar era já fome do ê ú escondido nas rosadinhas faces, - chegado aqui, olho e tudo foge, como se nada tivesse sido, nem caroço
Do meu ê ú pequenino restam esmorecidos fogachos, nem azulados tão pouco, de amolgada lembrança, - será que ê se esconde debaixo da pala mental, e ú assobiando passeia de lá para cá em contraluz de mim? - onde procurar meu ê e ú senão na fofinha drenagem do fechado cérebro ou no sangue que o levou ao coraçãozinho, logo vejo que ê ú não é pessoa mas duas letrinhas apenas e que fazer com duas letrinhas acachapadas à janela do coraçãozinho estando perplexo, -  o êú quero mesmo se mudo e não mais duas letrinhas for na garganta cabrita, - quero meu êú mesmo que só lânguido velar no choro perdido no tempo  

  

sábado, abril 21, 2018

Anos 10

 os músicos -5-
Cantaloup Olhão 2017
 Desenho
apontamento a grafite sobre papel
                                              21x14.30



domingo, abril 15, 2018

Anos 10

 os músicos -4-
Cantaloup Olhão 2017
 Desenho
apontamento a grafite sobre papel
                                              21x14.30



sábado, março 31, 2018

O algoritmo da palavra



Só ave é que voa e avião não tem penas


Dadá ou Dada, o dadaismo conceito e movimento, - dada, fala da criança, a palavra ocasional encontrada no dicionário, - dada dá, fala iniciática, som primordial, - o som e a palavra, o sónico signo, da voz, -  eu, tu e ele, - eu? eu açúcar, eu banana, - eu açúcar? casca de ovo fantasia e passarinho, - a casca cascava o ovodesascado, - casca que é cê, á, éss, cê e á com um pouco de nariz, nasalado casqâh, - nada de odor, fossas nasais sem dor e odor, - cás gutural, ca nasal, c(á)sqâh, - o sónico soar das palavras, a palavra som na mente insonora, - o eu músical, - ê e ú, êú, - ú sem  ê,  u, - o ê, o ú, e o êú som de mim, mim de eu e eu de mim, - mim? – ém, iii ém; - eu próprio, pró-pri-ú  o adjuvante  de mim - ém, iii ém, e êú voz sombra em ém iii e mê,  ouvindo êú nasalado no nariz de mim, eu mesmo,- mê, ês, mê e ú, mesmúo, - mimmesmo e ú êú de miiim, eu mim mesmo e ú êú antes de mim? ovo e galinha ave, - á, vê e ê, a ave fonema em mim sem galinha, percussão vocal em êú, - voo sem galinha, voo sonoro, - sú, nó e rú som de mim, êú voo sem ave, eu áhvvee só som de mim, - á, vê e ê com asa, que voa, voar do pássaro, pê e á pá, ssâ, ér e ô ru, pássârú sem ave, o som pássârú passa em mim soando, soa o lastro afagado  de eu ouvido de mim cá dentro do peito, caladamente musical e coisa que é passado pelo arco do obtuso vicio de ser que, se é coisa, é som do êú alapado em ém, iii ém  o querer de ser aurora limão ao luar, - que o sonar de pássârú é pá paladino, ssã  é molesa do coração e rú conota meu sonhar de o luar de meu sonho de limão, e êú quando digo amo-te, que é âh, mê, ú e tê mais ê, anoto que sinto a cereja caindo no chão, do âh que é árvore, mê que redondo rebola, ú que rubra, tê e ê que embate e quebra no chão que penso, e 


bengala

         é homem nu ao sol na praia


Benguela

         é mulher nua ao sol na areia


Trump

         é buraco negro



o som da palavra  não diz do seu significado, só ave  é que voa e avião não tem penas




quinta-feira, março 29, 2018

Anos 10

 os músicos -3-
Cantaloup Olhão 2017
 Desenho
apontamento a grafite sobre papel
                                                                              21x14.30

terça-feira, março 27, 2018

Anos 10



 os músicos -2-
Cantaloup Olhão 2017
 Desenho
apontamento a grafite sobre papel
21x14.30

Anos 10

 os músicos -1-
Cantaloup Olhão 2017
 Desenho
apontamento a grafite sobre papel
21x14.30

sexta-feira, março 02, 2018

os corredores habitados




cresci apanhando caracóis…, quando a água das chuvas enchia o habitat natural de gotejos e humidade, esses casa andantes de mochila calcária às costas, pareciam vaguear lentamente, deliciados, pelas pedras dos valados, no chão terroso ou subindo pelos caules das plantas rasteiras; surgiam dos coutos onde se escondiam, rastejando os corpos lassos e viscosos; rastos de baba marcavam o testemunho das suas passagens dando um toque de verniz às pedras; por vezes cruzavam-se delineando percursos distintos, aliciados pelo acaso dos diferentes aromas das frescas pastagens; bichos de catadura nocturna, a noite escondia-os da depredação, mas o pernaltudo humano não se deixa levar pela moral dos sentidos, e, a ética dos costumes acaba por ser um calendário da sobrevivência; - pela noite, à luz macilenta de um pneu ardendo, dolorosamente enfeitando-a de fuligem, os caracóis eram arrancados ao esteio natural das suas vidas para a rapacidade do apetite, - vertigens da sobrenatural caricatura da existência; - leva-me a escrita ao espaldar desta janela por onde espreito até ao rumorejar das noites de aço, - a densa madrugada dos sentimentos, a fosforescência da auto-estima nos devaneios precoces, - que fazia essa moldura de lampejos nocturnos lavrados em cestas de moluscos? - raiz dos sentidos vários madurando, envolvência dos olhos eloquentes, substância ácida da alegria; - o cheiro a borracha ardida rescendia ferozmente nas narinas, juntando-se ao acre labor da terra húmida, que, espargindo-se, se misturava ao fedor sulfuroso do alcatrão; da ponta onde a língua de fogo, esgueirando-se, tinha o seu último alento, levitando em arabescos de pesadelo, saltava um fio de estearina espessa, volutas de fumaça negra ao bamboleio da chama amarelada, - enterro da pequena luz na imensidão celeste; despedida da chama, sacudida pela aragem, a frouxa iluminação apalpava o espaço em redor e furava no carvão nocturno, cambaleando entre o vivaz e o lúgubre, - descoroçoados ânimos; - os pirilampos na terra desafiam as estrelas no céu, uma força antiga acompanha em surdina as chamas que se apagaram, como se uma caixa de fósforos tivesse viajado na escuridão prestes à sua eclosão, dilatada até ao recolho de todo o sentimento, - o duro negro da noite, enche prenhe a viuvez desses momentos, - restos do elixir nocturno ou o alabastro da meninice; - descubro a ênfase posta nos dias quando nas valetas escorria um regueiro borbulhando entre os estorvos das pedras e das serralhas; estas, que mais tarde iriam alimentar coelhos, porcos e caracóis, - troca onde o vazio do universo se esconde, sacudindo a angústia dos seres vivos para o lado de fora do animal, verdade embebida na fantasia de um olhar distante; - entre as almofadas das nuvens andarilhas, resplandece o sol, atirando sombras de veludo para o chão, e, enquanto a avidez dos insectos planava em acrobacias entre os tojos, mariolas ou funchos, os zumbidos rolavam nos ouvidos, alimentando o fremir perpétuo evolando das artérias e dos fluidos abissais  até à superfície da pele, - trechos musicais do assombro que se alapam à luminosidade dos caminhos; a vitória porosa da bicharada em transe de núpcias; - vertiginoso é o prazer, quando o azul dos lírios cai de entre as suspensas águas, e a intensa sensação de um delírio desperta o ânimo resoluto; - por vezes chuvisca e faz sol – e as bruxas a fazerem pão mole, cantavam os costumes –, enterrado numa perspicácia ingénua, enfarpelado, debaixo de chuva, violando os endereços da razão, saía lampeiro com a lata pendida da mão, em busca dos peregrinos que se desunhavam pelas paredes e pequenos vales; à transparência da água observava o musgo e líquenes que se inclinavam em doces vénias, ao sabor da corrente; cobriam o fundo das valetas os matizes viridentes onde os olhos escoavam a primazia dos afectos, - prestadora moral de ausentes servidões, pastoral dos rútilos cantos; - por baixo do azul índigo inflamado de glória, súbito os cúmulos acinzentados vogando lá em cima, despejam rebuliços de água e ensopam chapéu, casaco e calças, - dos caracóis mouros e caracoletas, restará o musgo dessa verdade, embebido na fantasia de um olhar distante, - talvez, uma saudação daqui como obituário dos fortes acontecimentos, - fonte procurada da Fénix renascida sob o cascalho das madrugadas