sexta-feira, agosto 09, 2019

A eternidade é um instante



Na horizontal da parada
o castelo é monumento
o jumento vai pela estrada
e o sol é um tormento

Bojuda gorpelha a dentro
sabes lá, o que lá vai?
o burro vai muito atento
e a senhora não se distrai

Por baixo do grave castelo
espraiada sobre os costados
andando em paralelo
burro e dona vão calados

Na paisagem soalheira
andando de mansinho
irá a dona à feira
escondido, vender seu vinho?

Muito ancha ela vai
espraida sobre a gorpelha
é como torre que sobressai
lá no alto em grés vermelha   




Com a lanterna apagada
consultando o mapa a jeito
sobre o estrado da carroça 
manja a mula com efeito
e o homem não vê nada

Acabou-se o liquido petróleo
a mula está cansada
não há gasolina nem óleo 
e a carroça está parada

Faz um calor de rachar
o tendal é coisa boa
é melhor à sombra, e parar
até qu´a gasolina chegue d´Lisboa



Em Silves, onde vivi
não havia esta paisagem
- mas o Arade estava aí
e a Ponte era passagem


Imagens "roubadas" a Patrícia De Jesus Palma

quarta-feira, junho 19, 2019

Outro mundo é possível



 Cantiga d´amigo

Ai eu, como adoro as ninfas e borboletas
Como gosto das noites de luar, ai ais…
Elevar-me com os ais, ais, daquelas Julietas
Perder-me nos ais cristalinos dos cristais

Ai eu etéreo nos poemas de solidão
Sem constipações nem dores de dentes
É como fino ajaezar ao verde limão
Poemas de amor - sem alfinetes

Oh doce amigo
Que ides ver tão longe deste olhar?
Aqui! - Quero contigo
Que nossos olhos fiquem eternos a brilhar

 Foto de Thomas Erfurt



segunda-feira, junho 17, 2019

Desenho e escrita



Duas Escritas no Papel - III

deixo os eixos
das minhas vitórias
nos caminhos da solidão

estremeço
quando o solo é aurora

 grudo a imensa voz
ao lençol herbáceo 

finco os pés 
lavados com uvas do deserto
e respiro fundo na eternidade que me cobre








sexta-feira, maio 24, 2019

Outro mundo é possível

Outro mundo é possível VII

GAZETA DE POESIA INÉDITA

20
Mai19

ADÃO CONTREIRAS - AS PALAVRAS VÊM DEPOIS




Teu corpo
Uma luz que reverdece
                            matéria e cansaço
Uma aranha de dúvidas
                           animal reverberando no azul
Doença com alegria e chuva
                           espaço dilatado


Uma coisa assim, o corpo
                        ninho incolor
Fibra ruinosa e quente
                        lençol doído de véspera
Uma coisa assim, dedo
Que aponta
                        lua de mel e gripe


Cantar o corpo
O cinzento amolecido das manhãs
                         dor perfeita com voz
Lençol amachucado sem flagelos
                        dilúvio singelo de sons
Teclas  do amanhecer
                        vigília sonora

As palavras vêm depois
                     e  acende, uma coisa assim






Outro mundo é possível

Outro mundo é possível - VI



Entre estevas e valados
Na serra do Caldeirão
Dava forte nos safados
Deitava inimigos ao chão

De cabeça bem alta
Sempre pronto a dar a dar
Xingava da poluída malta…
- cabisbaixo? – nã´ia não! - lá votar

Foi naquele dia desgraçado
Bebido até às entranhas,
Esqueci-me do meu passado
E votei lá nas montanhas

Há feitiços de muitas manhas
Coisas do avesso viradas
De uma forma muito estranha
- Voaram os fuzis em revoadas! -

Fiquei preso na solidão
Foi tanta a minha invernia…
Luto agora com punho e mão
- Até que morra qualquer dia!..


 foto de Thomas Erfurt

domingo, maio 12, 2019

Outro mundo é possível


Outro mundo é possível V

Tantos heróis na pradaria
Com suas carroças e baladas
Deixando mortes e agonia
Na mira das suas espingardas


Tantos heróis cavalgando
Sobre espadas de acção
Tanto luto amortalhando
O ouro do nosso coração

Nas trevas do ouro brilhante
Cavalgam heróis sumptuosos
Grumetes de um além delirante
Dos túmulos d´ amores sulfurosos

Ondas perdidas na natureza dócil
- flores no mundo evanescente –
Tanto velho ouro em osso fóssil
Tanta luz na lua decrescente



Leituras...

Desenho e escrita


Duas Escritas no Papel - II

plangente me sinto
sob as abas daquela melodia

alga aberta ao oceano
ondulante clareira

ligeira denúncia de um esquecimento
entre alas de ciprestes
e o hino sem história







Desenho e escrita


Duas Escritas no papel I

aqui
na vertigem dos oceanos
sem clausuras oiço-te
tão breve
nos longos caminhos sem dor
uma breve cúpula de segredos
respira no teu colo 


- desenho a esferográfica

terça-feira, maio 07, 2019

Outro mundo é possível



Outro mundo é possível...  IV


O Romeu nos Gorjões

 Não como passarinhos...

Éramos ainda gaiatos, caminhávamos pela verde marcha da vida espraiando-se em doces primaveras, quando nos conhecemos, naquela escola afável e subtil, que nos envolvia em emoções fortes, protegendo-nos das nossas fraquezas 
Um dia, puxei-o a este Sul, a esta terra garrida de azul febril e de um Sol ácido e doce, como laranjas atormentadas
O tempo tem a espessura das nossas emoções, ainda que voláteis, segregam humores tributários das nossas grandezas e misérias; nómadas, regressam sempre aos lugares que ocuparam algum dia
Normalmente, trepamos na idade agarrados ao chão; o chão sustenta-nos como o leite materno ao menino; desperdiça-lo, um abuso de confiança, é! - um mal entendido que acorrenta as nossas vidas
. os bichos comem-se uns aos outros; maldição dos corações desnudados – 
A terra contagia-nos pela macieza dos cheiros, a doçura dos cânticos das aves, a limpidez dos sons nocturnos, - a febre da criação entre os grãos terrosos, como aço escorregando das gavetas abissais, dá força aos dias; - não há lacunas no tempo envolvido na prostração das raízes debaixo dos estercos; pressente-se nas janelas da escuridão o rejuvenescimento dos corgos; a cor dos ventos aviva a lucidez do olhar; debaixo das manhãs carregadas de névoa habitam as nossas dúvidas, mas, quando o sol penetra em círculos agudos pelas fendas da memória os dias crescem, até ao passado indomável 
Naquele dia de rosas, os pintassilgos voavam em bandos, com as asas listadas de amarelos garridos; tempo de chuvas doiradas que cercavam os passos com a prontidão do reverdecimento; nos anais destes lastros avivam-se as pegadas dadas, e, as marés imploram as dores dos oceanos, avançando e recuando
Havia a beleza e a penúria como um adágio forte e delinquente, por isso, os passarinhos morriam enganados, debaixo do murmúrio nocturno; - os espectros luminosos esquentavam as pedras duras, os torrões ensanguentados, despidos pelos arados 
Na cozinha ergue-se o pranto dos vivos, e o brado dos pratos vazios adorna as consciências; - os passarinhos e a loiça branca; a neve e as feridas dos olhos; os fritos e as mazelas das odes triunfais; voluntariosos e danados apetites como sombras musculadas de um cio negro, - as aves não mais cantariam debaixo dos olhares campados
Ele, o amigo, modulava o arnês do futuro com a convicção de um deus de mármore, e dizia: - não...,não como passarinhos…!      

O Romeu I
Desenho a pena sobre papel
30x21 
Colares 2019


O Romeu II
Desenho a pena sobre papel
Desenho a duas mãos Adão e Romeu
30x21 
Colares 2019