quarta-feira, setembro 20, 2017

O algoritmo da palavra




O real não adormece nas palavras

Dito, como um ávido pretendente do absoluto, que

O (4) nomear-se-á pelo     – 1 –
O (1) nomear-se-á pelo     – 4 –
O (2) nomear-se-á  pelo    – 3 –
E o (3) nomear-se-á pelo   – 2 – 

Na esconsa subtileza do meu olhar, - e do teu, entre parêntesis, - dir-se-á que o avesso duma verdade não é uma mentira, porquanto

4, 3, 2, 1

É da natureza empírica dum resultado óbvio do amor aos números e às coisas
Mas repara

4 + 3 = 2
4 + 1 = 5
3 + 1 = 6

Quantas coisas caiem ao chão, quando digo - quatro?
Quantos abraços tenho eu que dar para que um corpo se incendeie?
 







quarta-feira, setembro 06, 2017

os corredores habitados




As pessoas vão, escorregam para o lado incerto de um nada, e sobre o nada ou do nada não há nada a fazer, – talvez auscultar a memória daquilo que em nós resta, presentificá-la com as soberbas palavras e a desinfectada razão; cumular dos nossos desejos e afectados pressentimentos.
Digo então:


Soneto informal

 Agora a minha respiração alonga-se, mas o calendário (da respiração) pode sufocar. É um medo que cobre qualquer orgulho, mas também uma ponte com memória; a fricção dos nervos desdobra os retalhos das paixões e deixam nuas as paisagens com fósforos; alegra-me o Inverno e os contos de fadas da poesia. Naturalmente, entre a poeira dos sentidos, abraço um dia de sol.

Onde param as efemérides que assolaram os tesouros de algum dia, onde estão as caixas dos ébrios acordes, as violentas noites do silêncio? – onde estão os teus sinais, a doce caravana dos teus cabelos, a amizade que deixaste na garganta? – na curva dos teus olhos verdes soltam-se os vidros que respiram; na azafama da torre sangrenta não há notícias desses campos

empresta-me o sinal da tua dor para que vença o medo
liberto está o dia quando a noite se apaga       
e deixa cair a mão sobre os ombros da não servidão

do canto da voz eterna resta o silêncio das palavras
na foz do contentamento apagam-se as luzes desavindas
mas o furor que nos ergue não deixa sombras na pele



terça-feira, setembro 05, 2017

os corredores habitados




Não te deixes levar pelos sonhos
Se não agires não encontras nada

O beijo assim o diz
- preso nos lábios não voa




quarta-feira, agosto 30, 2017

os corredores habitados




a pequena flor

estás aí
tens o endereço da paixão da terra
pequenas pétalas rindo da imensidão

no grande monte a nudez pequenina
na berma da estrada a tua voz plural

com o ímpeto das tuas mãos coloridas
drenaste o caos para o círculo das mínimas coisas
percorres o odor da penumbra ao entardecer
- estás aí pequena flor
 aberta ao vento que me sacode





sábado, agosto 26, 2017

os corredores habitados




Pois…
E a minha angústia não será mais que a cauda dum pavão
noite adentro
e um semicírculo de pesares
de dentro para fora do meu temor

Haverá chuva de incêndios
no inverno de qualquer amor
e a terra do círculo da minha incidência
rasurará os focos de luz

Num passo para a frente
cruzo-me com um regato de água
Nem mais direi de mim
que a aurora aberta é um verniz de silêncio
e a frouxa luz é um aterro para a fuga

Mas no deserto do imaginário
há mais que o pudor da morte
Pois…
Quando ando cancelo a pobreza 


domingo, agosto 20, 2017

os corredores habitados




 "cemitério de futuros" do poema de pjp

Há palavras que estão gastas
Outras nascem nas asas dos acidentes
O que subtraindo à matéria densa
- combustão de alegrias e vícios –
O cemitério de futuros – traz soluções póstumas

Os choros de prata
Viajam nas gotas dos sonhos
Da invisível voz
Soltam-se os cânticos das aves
No azul da memória errante
Abrem-se os pequenos halos do inverosímil