sexta-feira, janeiro 02, 2026

modelações LI

 modelações LI

Máscara  - Pintura a óleo sobre tela 
 4x(50x20) cm Anos 90

Nas abas da aflição cresce a abundância, é um sigilo de vertigem, uma crosta no pão salgado, um bocejo eterno para o amor dividido; a pessoa veste os seus trapos, mar de sargaços; pousa a mão sobre a saliva, deixa um buraco no ameno vento; ligeiramente cantando, inunda-se a voz, corta-se o eco com uma tesoura; na cidade eterna dançando com os tojos, cumpre-se a missão da dúvida sobre o primor da seda dos ossos, da queda dos joelhos viajantes; -- é um poço de segredos a nossa vida! -- nada cresce na vertigem do vinagre, e só a flutuação dos calcanhares alivia a dor; também há flores no jardim, é bem verdade! --um osso amargo na estrumeira, um fósforo ardendo na água, porem! Deseja-se um alívio? --sim! À beira mar plantado o corpo ferve, e a manteiga dos sonhos desfaz-se em borboletas descoloridas? -- nas ruas iluminadas há ecos da sonolência das estrelas; dormem os cascos dos cavalos nas pastagens adocicadas, e as trempes que sustentam as panelas sobre o fogo do carvão azedo, amuaram com o frio da cinza; sentado à lareira, viajo na solidão com o peso das orelhas gritando; solta-se um pó-de-arroz do eco da cidade, uma mancha aberta nas folhas das árvores, um despiste nos caminhos dos desejos; dias tortuosos como agulhas espetando os olhos avistam-se ao longe, na embriagada luminosidade; palavras crescem nas adegas dos venenos, entropias dos sons desaguam nas aparências dos cristais; na rua do meu vizinho dorme a alegria com uma tristeza doentia; a manta que cobre os seus pelos é uma pele de crocodilo latejante como asteróides numa bandeja; um triângulo de certezas é redondo e ninguém o agarra; sobra da água do mar o alívio das pedras; a bandeira das quinas é um lençol afogado que se colhe delirante nos jardins da praça pública; naturalmente, que digo tudo isto, com o medo de me arriscar a viver! -- as laranjas do Algarve são doces, mas por vezes têm uma casca grossa, --- é preciso uma faca bem afiada, digo eu, para abrir caminho para a doçura! -- Corações há que petrificam na insolvência dos dias. Solene caminhar ardendo aos soluços, no palácio Gulbenkian, os hinos rejubilam das mesas; o silêncio cresce como a ternura nos rostos dos bebés, -- se o algodão não mentir!